ENCONTRO QUE TRANSFORMA
Depois da ressurreição de Jesus, os discípulos tiveram de passar por experiências que lhes permitissem compreender que a morte não tem a última palavra, que o Mestre estava vivo, que continua a caminhar com eles, que os alimentava com sua Palavra e que podia ser reconhecido na partilha do pão.
O Ressuscitado aparece no meio da comunidade e deseja a paz. Ele, que tinha conduzindo os discípulos e ensinando novo modo de ser e de agir, continua o centro da comunidade. Jesus deseja a paz, que é a vida com dignidade para todos o anseio mais genuíno dos corações humanos.
Os discípulos precisaram superar o susto e o medo para reconhecer o Mestre vivo, com as marcas da crucifixão, comendo peixe diante deles. O encontro com o Ressuscitado é que lhes abriu a mente para compreender o alcance da Escritura, que falava de um Servo Sofredor que ressuscitaria ao terceiro dia. Para compreenderem, afinal, que a Escritura falava da missão deles mesmos: missão de testemunhar a todos a vida nova que vem do Mestre que sofreu e ressuscitou. Vida nova que se testemunha anunciando a conversão e o perdão dos pecados a todos.
De Jerusalém até os confins da terra, do medo que se fecha a comunidade em si mesma à coragem e alegria de anunciar o Ressuscitado, os discípulos precisaram passar por experiências de encontro com o Mestre. O testemunho cristão, portanto, requer de nós hoje o mesmo encontro, contínuo, com o Ressuscitado Jesus de Nazaré, quele Mestre que viveu e ensinou a viver entregando a vida pelo outro.
Neste tempo de Páscoa, renovamos nosso empenho para que Jesus seja de fato centro de nossa vida, da vida de nossas comunidades, para que continuemos a nos transformar e a transformar o mundo, tocando as preocupações e as dúvidas pela fé ativa de quem se compromete com a construção da paz. Afinal, qual é a vida nova que estamos testemunhando para o mundo de hoje?
Padre Paulo Bazaglia
VENCER O MEDO PARA EVANGELIZAR
Tudo aconteceu no primeiro dia da semana, tanto na primeira cena, (com Tomé ausente). Os discípulos estão trancados por medo. O Ressuscitado aparece-lhes e lhes mostra os sinais da paixão, para dizer que é ele mesmo, não um fantasma. Deseja-lhes a paz e lhes concede o Espírito Santo, que os acompanhará na missão à qual foram enviados.
O Concílio Vaticano II propõe abrir as portas e janelas da Igreja para arejá-la. Dois mil anos antes, Jesus já alertava os discípulos para que saíssem, lançando-se à missão, e não ficassem trancados - com medo - entre quatro paredes.
O Papa Francisco incentiva continuamente a Igreja a sair e ir às periferias sociais e existenciais, onde a vida é maltratada e diminuída por motivos diversos - entre os quais, o descuido por partes das autoridades construídas.
Avançando a passos largos no terceiro milênio da era cristã, já não estamos o direito de continuar dormir, presos à mentalidade de séculos passados. Está na hora de arejar mentes e corações, manter-nos atentos aos sinais do tempo e perceber os novos desafios que a atual "mudança de época" nos impõe.
O documento de Aparecida nos chama a ser discípulos e missionários. Discípulos sempre atentos à mensagem do Mestre, para aprender com ele, e missionários enviados a levar a paz (desafios sempre maior, haja vista as múltiplas formas de violência( e a reconciliação a uma sociedade cada vez mais arrogante e intolerante.
Já fomos iluminados pelo Espírito Santo e, portanto, é o momento de assumir a missão que Jesus nos deixou. O Documento de Aparecida continua a nos advertir de que "não temos outra felicidade nem outra prioridade senão a de sermos instrumentos do Espírito de Deus na Igreja, para que Jesus Cristo seja encontrado e anunciado a todos" (DAp 14).
O Espírito Santo animou as primeiras comunidades cristãs; ele há de iluminar e encorajar também a Igreja de hoje. Sem ele, a Igreja se fecha em seu casulo e deixa de assumir o compromisso da evangelização.
Padre Nilo Luza
SINAS DA RESSURREIÇÃO
O primeiro dia da semana inaugura a nova criação de Deus, o tempo da Ressurreição, da vida que venceu a morte. Maria Madalena, Pedro e João representam os primeiros seguidores, que ainda não haviam compreendido o poder infinito de vida que estava em Jesus. Uma comunidade desorientada, que busca o Mestre morto no sepulcro.
Maria Madalena é a primeira a encontrar algo inesperado: o sepulcro aberto. Ela nem se quer olha o que há lá dentro e vai contar a Pedro e João, supondo que alguém tivesse roubado o corpo do Senhor.
A corrida dos dois discípulos ao sepulcro é a corrida simbólica da fé, e quem chega primeiro é Discípulo Amado. Chega antes quem ama e vive a relação do amor e da amizade com Jesus. É o último a ver os sinais, mas o primeiro a acreditar.
Os sinais do sepulcro vazio foram deixados aos seguidores de todos os tempos, também a nós: um lençol ou faixas de linho estendidas, e um sudário enrolado num lugar à parte.
Jesus não se manteve preso as faixas que envolviam seu corpo crucificado. Ressuscitou. Venceu o poder da morte, saiu do sepulcro para a vida. As faixas ou lençóis estendidos representam a vida nova, pois fazem pensar num ambiente preparado para a consumação de um casamento: a aliança definitiva entre o Esposo ressuscitado e nova humanidade.
Ao pensar o detalhe do sudário deixado num "lugar" à parte, o Templo de Jerusalém e a ordem injusta ali estabelecida, afirmar o "lugar" por excelência, o corpo de Jesus ressuscitado, como o novo santuário para toda a humanidade. Pois, de fato, os que foram ao túmulo à procura do corpo de Jesus saíram de lá como Corpo de Cristo.
Quem ama vê os sinais e acredita. Na corrida de nossa fé, encontraremos sempre um sepulcro vazio, encontraremos tatos sofrimentos injustos, tantas mortes prematuras. O Ressuscitado, porém, vai nos deixar sempre os sinais de sua vitória, para seguirmos além, anunciando ao mundo que seu amor está em nós, é maior que tudo e supera tudo.
Padre Paulo Bazaglia
DESEJO DE VER JESUS
Muitos procuram ver e conhecer Jesus. Alguns gregos (não judeus) mostram-se interessados em conhecê-lo e manifestam esse desejo de Felipe. Ao saber disso, Jesus não estabelece conversa com eles, mas anuncia aos discípulos a chegada de sua hora. Desde o começo, o evangelista João aponta para o momento da "hora" de Jesus, ou seja, da sua glorificação".
Provavelmente o interesse daqueles gregos surgiu pelo fato de terem sido alcançados pelo amor vivido por Jesus. Esse amor é expresso quando o Mestre diz ser necessário morrer para produzir vida, como o grão de trigo. O amor, invisível, só se se revela nos sinais concretos que alguém realiza. Jesus optou pelo serviço, pelo esvaziar-se a si mesmo, para que outros tivessem vida. Em outras palavras, chegou a esse ponto porque, ao longo de sua caminhada, procurou defender a vida dos que a tinham diminuída ou ameaçada. A defesa e promoção dos pobres provocaram conflitos com os sustentadores de uma sociedade injusta, que cria empobrecidos.
Jesus nos mostra que fechar-se em si mesmo é perder o sentido da vida, pois ela se plenifica quando é posta a serviço do bem dos outros. Quem vive apenas para si mesmo e com preocupações exclusivas com o dinheiro, com o próprio sucesso, bem-estar e segurança, acaba se limitando a uma vida medíocre e estéril. É como o grão que permanece apenas grão, sem nada produzir. A metáfora do grão mostra que a morte é condição para liberar o germe da vida, isto é, a energia vital que a semente contém.
O interesse dos gregos em conhecer Jesus é compartilhado hoje por muitas pessoas. Algumas apenas por curiosidade, outras por entenderem e admirarem seu projeto e nele querem se engajar. O desejo de vê-lo significa a disposição de deixar-se transformar por sua presença. Não basta apenas saber quem é Jesus; o importante é se comprometer com ele e com seu reino. Seremos cristãos autênticos à medida que nos sentirmos atraídos pelo Senhor e fizermos experiência com ele, seguindo-o na cruz e na glória.
Padre Nilo Luza
O NOVO SANTUÁRIO
Jesus praticamente inicia a sua missão pública, no Evangelho de São João, entrando no Templo de Jerusalém. Lá ele encontra, em vez de fiéis em oração, vendedores e cambistas. Um comércio tal, que havia transformado a casa de Deus em lugar de exploração, sobretudo dos pobres, com leis religiosas que obrigam os fiéis a comprar bois, ovelhas ou ao menos pombas para sacrificá-las e assim conseguir a reconciliação com Deus.
Ao fazer um chicote de cordas, Jesus deixa claro que ele é o Messias esperando, aquele que vem para "açoitar" as praticas de injustiça e inaugurar um tempo novo. Ele faz o povo sair daquele centro de exploração, junto com ovelhas e bois. Aliás, as ovelhas na Bíblia muitas vezes representam o próprio povo. Jesus vem tirar do Templo, vem libertar da exploração comercial disfarçada de religião. Ele derruba as mesas e o dinheiro dos cambistas e ordena aos vendedores de pombas (a oferta dos pobres) que tirem tudo de lá. Pois o sacrifício de pombas de nada mais serve diante d'Aquele que desceu em forma de pomba, no batismo de Jesus.
Costuma-se dizer que Jesus faz que Jesus faz a "purificação" do Templo. Porém o que ele faz, na verdade, vai muito além, declarando que seu próprio corpo é o novo santuário e que a oferta de sua vida elimina a necessidade de sacrifício de animais. Jesus deixa claro, além disso, que Deus não habita locais onde se explora a fé do povo simples. O Espírito de Deus esta presente em Jesus, e esta presença o torna indestrutível. Podem matá-lo, mas sua morte não será definitiva, pois no terceiro dia ele voltará à vida plena.
O corpo de Jesus, sendo a morada de Deus, é para o verdadeiro santuário, que nos aproxima do Pai. Na "casa do Pai" somos famílias, e em família não fazemos comércio, mas agimos na gratuidade do amor. Como família-comunidade, pertencemos ao Corpo de Jesus. Unidos a ele, unimo-nos a Deus na liberdade de filhos amados, cujo sofrimento diário a Criador já conhece compromisso com a vida para todos ele como oferta genuína.
Padre Paulo Bazaglia
O DOMÍNIO SOBRE O MAL
O Texto de Marcos é composto de três pequenas cenas: na casa, no pátio e nas aldeias. Da sinagoga, onde irradia a ideologia (cf. domingo passado), Jesus parte para a casa, lugar da intimidade e da convivência fraterna. A casa é também a comunidade dos discípulos e discípulas.
Na casa, Jesus encontra a sogra de Pedro prostrada pela febre e, estendendo a mão, levanta-a. Imediatamente a mulher se põe a servir os presentes. À porta, no pátio, levam doentes e endemoniados para serem curados. Do lugar íntimo (casa), a prática de Jesus torna-se pública e a ação libertadora é ofertada a todos. Depois de um momento de oração (no deserto) para recuperar as foças, Jesus parte para aldeias.
Com a força libertadora de sua palavra, Jesus vence as forças do mal que ameaçam a vidas das pessoas nos vários ambientes de convivência. O evangelho de hoje aponta o caminho da evangelização: iniciando na casa, indo para vizinhança e concluindo nas vilas e cidades.
Na casa de Jesus não hesita em tocar uma mulher doente. Ele lhe estende a mão e a levanta. O toque, o abraço, é indispensável para quem cuida dos doentes e debilitados. A primeira preocupação de toda ação do evangelizadora deveria ser o necessitado mais próximo, na família. A missão do discípulo e discípula de Jesus é estender a mão a quem necessita para torná-lo livre e, assim, também ele se fazer um servidor.
A missão de cada cristão, porém, não tem como limite o interior da casa ou da comunidade: precisa se estender aos vizinhos necessitados. Para isso, é essencial haver momentos de "deserto", que proporcionem o cultivo da comunhão com Deus e renovem o vigor espiritual.
Com a energia renovada, física e espiritualidade, a missão pode se estender para alguém das fronteiras da casa da vizinhança. Todo seguidor de Jesus deve ser um apaixonado pela vida, a exemplo do Mestre. Não podemos nos conformar com tanto sofrimento, dor e morte. Apatia e indiferença não podem tomar contas de nós. Afinal, somos ou não portadores de uma esperança para as pessoas mais fragilizadas?
Padre Nilo Luza
MESTRE, ONDE MORAS?
A Igreja a primeira etapa do tempo comum com um texto do Evangelho de João. João Batista proporciona o encontro de Jesus com seus primeiros seguidores quando anuncia: "Eis o Cordeiro de Deus". Porém o papel do Mestre é fundamental quando, diante do interesse dos que se aproximam e onde mora, convida: "Vinde ver".
Os primeiros seguidores estão convictos de sua decisão, que convidam outros para segui-lo. Sem dúvida o testemunho é essencial, mais eficaz que muitas palavras. Podemos ser levados à presença do Senhor pelo testemunho ou pelas palavras de alguém, mas a decisão e a opção por ele são estritamente pessoais.
A missão de João Batista é fazer a ligação entre o Antigo e o Novo Testamento: ele prepara o caminho para a chegada de Jesus e o revela como o "Cordeiro de Deus" - título pelo qual os primeiros seguidores foram atraídos e que proclamamos em todas as missas.
Quando nos dispomos ao seguimento do Mestre, temos de deixar para trás certezas e hábitos adquiridos. Procuramos muitas coisas na vida: coisas fundamentais e superficiais, um sentido, uma direção... O seguimento de Jesus é que nos ajuda a discernir o que é mais importante e onde está o verdadeiro sentido para vida. A pergunta de Jesus continua sendo decisiva e nunca podemos esquecê-las: "O que estais procurando?"
O discípulo consiste em permanecer sempre com o Mestre e deixar-se iluminar por e guiar por ele. Com o tempo, o rosto de Jesus se revela em todo o seu mistério e compromete seus seguidores com seu projeto de vida digna para todos.
A pergunta dos discípulos continua a nos incomodar: "Onde moras?" Ele simplesmente nos convida a ir e permanecer sempre com ele. Continuamente nos chama a ir ao seu encontro, desalojando-nos do comodismo. Precisamos nos levantar, segui-lo e fazer experiência pessoal de encontro com ele. Sempre haverá alguém a indicar o caminho, mas tenhamos cuidado, muitos podem nos iludir. Não raro podemos encontrá-lo lá onde há menos barulho e onde menos seria de esperar.
Padre Nilo Luza